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  • Foto do escritorirenegenecco

Autobiografia

Atualizado: 16 de jun. de 2023


Nasci em Butiá, cidade de minas de carvão, bem próxima a Porto Alegre. De família biológica carente, com referência a nível financeiro e status social, perdi minha mãe no seus 23 anos, deixando órfãos seus 3 filhos. Eu tinha então 2 anos. Aos 5 morre meu pai, de tuberculose causada pelos efeitos de trabalho imerso nas minas de carvão. Quando ele se descobriu doente (idos de 1955, quando ainda não havia cura para tuberculose) providenciou uma família para me adotar, e me entregou pessoalmente ao novo lar, em Porto Alegre, morrendo meses depois. Na verdade, "o combate à esta doença passou a ser mais eficaz no final da década de 1970 sob a coordenação do Ministério da Saúde".* ​Escolho esta fotinho por ser muito significativa na minha história pós adoção.


Esta virada no meu destino foi um divisor de águas quanto ao meu futuro. Aos 10 anos de idade minha mãe adotiva também faleceu, e meu pai adotivo casou-se novamente. Dentro desta tumultuada pertença civil, usei 3 nomes diferentes: nome biológico Irene Pamplona Gnecco, nome de adoção Irene Genecco de Azambuja, nome do primeiro casamento Irene de Azambuja Mattos, este como aparece em minha primeira coletânea de poesias, em 1985 – Quando as folhas caem, edição APAL (Academia Porto-alegrense de Letras) – UNARGS (Universidade Aberta do Rio Grande do Sul). Meu nome literário é Irene Genecco.


Cabe aqui um adendo ao sobrenome Pamplona, procedente de minha avó paterna, Maria das Mercês Pamplona, de origem espanhola, conhecida na família por Bicota. Nunca pensei que se pudesse amar alguém apenas nas sombras de sua história. Aprendi a amar minha avó, do mais profundo do meu coração, sem nunca tê-la visto, a partir de narrativas de um primo irmão, também neto dela e que junto a ela se criou. Quando o encontrei , já adulta, nas buscas de minhas raízes, ela já havia partido, há bons anos. Posteriormente eu, já divorciada, e este primo viemos a nos apaixonar e vivemos juntos 14 anos. Sua incansável e infindável narrativa de sua própria infância junto à vó Bicota me nutria de pertença. Nossa paixão recíproca era forjada em laços de saudade, a dele do vivido, a minha do imaginado.


Meu pai fugira de casa aos 15 anos, por muito apanhar do seu pai, nosso avô. As lágrimas da vó Bicota enchiam o doloroso buraco em seu coração, corroído pela fuga do filho. Pedalando em sua máquina de costura, em turvadas tardes de chuva, debulhava fotos do filho sumido, do bauzinho de recordações. Este neto foi seu fiel escudeiro, e destas lembranças ele também se alimentava de pertença.


Outro adendo cabe sobre minha mãe. Era filha mais velha e única mulher, no trio de 3 filhos. Já adolescente, acompanhou sua mãe, minha vó Benvinda, em fuga com seu cunhado, para outras paragens do Rio Grande do Sul, de Monte Negro para Butiá. Minha mãe sofria de cegueira progressiva, desde tenra idade. Mesmo tateando em sombras, ajudava no balcão, em sua nova vida, num boteco do tio, onde moravam. Ali se encontraram, ela e meu pai. Fugiram para uma noite de amor, e na volta seu tio pôs uma faca no pescoço do meu pai, fazendo-o decidir entre casar ou morrer. Casou. Aos 23 anos, já com três filhos, minha mãe morreu, de morte súbita. Fazendo um parêntese, a causa real de sua morte não me parece adequada relatar aqui.


Disto tudo fui sabendo, depois de adulta, quando decidi desentranhar minhas origens. Com relação à família de minha mãe, encontrei 2 tios, seus irmãos, que haviam ficado com o pai, quando minha avó Benvinda fugiu com o cunhado. Eles me desenharam a imagem de minha mãe no relato de suas lembranças. Antes disto, a única referência concreta que eu tinha dela se reduzia a uma certidão de óbito. Depois destes relatos, algo em mim ficou um pouco mais concreto. Ela portava cabelos bem longos e bonitos, dos quais muito se orgulhava e cuidava, era alegre, companheira e gostava de escrever. Da infância à adolescência, só enxergava vultos, doença em contínua progressão, e se movia de vagar, segurando-se nos muros e paredes. Andava por toda a parte, não se aborrecia com sua condição. Nada guardo de sua fisionomia, pois tinha apenas 2 anos, quando ela se foi, e nem uma foto restou de sua presença no mundo.


A muitos tratamentos se submeteu em Porto Alegre, na Santa Casa de Misericórdia. Passava meses lá internada, onde mantinha longas conversas com as freiras, que lhe muniam de leituras, enquanto ainda podia ler. Muito provavelmente isto foi fonte de inspiração para alguns poemas que começou a escrever. De uma vizinha de cerca da casa de meus pais, colhi muitos relatos autênticos da vida que levavam. Brigavam muito, meu pai bebia e era rude com ela. Mesmo entre sombras e vultos, cada vez mais trêmulos e desbotados (ela estava praticamente cega, já) cuidava dos filhos e da casa, como podia. Seus enteados, filhos da antiga união de meu pai com outra mulher, a detestavam. Se prontificavam a conduzi-la ao riacho, para que lavasse sua trouxa de roupas, mas depois espalhavam toda a roupa lavada no barro, e saiam correndo, às gargalhadas. Hoje compreendo a dor deles, e não os julgo.​


Com relação a raízes mais fundas, meus tios e primos contaram algo sobre nossos ascendentes. Entre quatro ou cinco gerações anteriores, chegaram a Bento Gonçalves, em seus relatos. Sim, tinha uma negrinha que com ele se deitou, como era mais do que "normal" acontecer. Ela engravidou dele. Antes de partir para outras revoluções, Bento Gonçalves deixou-lhe um dinheiro para que comprasse a liberdade do filho, quando nascesse. Vem daí meu conhecimento mais antigo de minhas raízes maternas. Virá dessas veias minha indignação com a privação da liberdade de um ser?


Com relação ao meu pai adotivo, tenho algumas lembranças de suas conversas a respeito da sua infância. Também fugiu de casa, aos 15 anos, onde nasceu, em Bagé. Minha noção, com respeito ao sentimento de pertença nesta família, nasceu de visitas, em tardes de domingo, com bolinhos de chuva, muita risada, simplicidade e acolhimento, na casa de sua irmã e sobrinhos, reencontrados e reunidos, também, depois de adultos. Tenho doces lembranças de abraços, gestos de carinho, e palavras gramaticalmente erradas, mas decididamente amorosas, que carrego como joias preciosas, ainda hoje. Minha tia Negra, seu marido tio João, e meu tio Viriato são imorredouros no meu coração.


Com relação à minha mãe adotiva, enamorou-se de meu pai adotivo, ainda muito jovem. Desconheço como se encontraram. Porém, meu pai adotivo era caixeiro-viajante. A família dela não aceitava este romance e este enlace, por acreditarem haver muita diferença intelectual e financeira entre eles. Porém, ela brigou com toda a família e casou-se. Depois de 20 anos casados, sem filhos, me adotaram. Pelo que lembro, ela era apaixonada por ele. Talvez a condição de viajante acendesse nela o desejo de presença e intimidade, motivo de grande efusividade e alegria, quando ele retornava de viagem. Porém lembro também de seu perfil na janela, domingos de tarde, futebol no rádio, e uma distância imensurável de sua presença no pequeno apartamento, onde morávamos. Parecia estar mergulhada no passado. Talvez lembrando das dores do desencontro com suas raízes.​


Para complementar minha história familiar, reporto-me à minha madrasta. Era viúva há 10 anos. Trabalhava numa loja de porte, em Uruguaiana, onde nascera. Seu primeiro casamento parecia ter sido harmonioso. Dona de si, com seu dinheiro próprio, coisa muito rara, na época, conheceu meu pai adotivo, em uma de suas viagens de trabalho. Ele, há um ano viúvo, premia por uma companheira que me olhasse e cuidasse da casa. principalmente durante sua ausência, em viagem. Ela encantou-se com a proposta de casamento. Tinha então 40 e poucos anos. As promessas dele foram irrecusáveis. Prometia morada e vida de rainha. Porém, claro, promessas humanas dificilmente correspondem a realidades. Ainda mais quando são feitas sob a pressão de necessidades próprias, à sombra de grandes aflições, como era a situação presente do meu pai adotivo. Casaram-se, ela mudou-se para Porto Alegre e deu de cara com uma adolescente de quase 12 anos, revoltada com a vida, carente de família, e desiludida com os acenos do próprio destino. Foi um período muito tumultuado para ambas. Só hoje, há muito pouco tempo, aprendi a ser-lhe grata, pelo que pode fazer, em meio a suas próprias turbulências e decepções.


Voltando à parte burocrática de meus nomes, cabe ressaltar que meu nome biológico correto seria Gnecco, descendência de um padre que veio de Gênova para o Brasil, entrando via Tubarão, Santa Catarina, e posteriormente exercendo suas funções religiosas em Florianópolis nos idos aproximados entre 1840 e 1850. No Arquivo Público de Santa Catarina podem ser encontrados registros a próprio punho do Padre Joseph Gnecco, sobre suas atividades diárias na paróquia. Com vistas grossas dos dirigentes da igreja católica, na época, (caso contrário nenhum padre se submeteria vir para uma selva, como era conhecido nosso país na época) ele veio para o Brasil já com uma mulher francesa, Magdalena Peixer, com quem, pelo que sei, teve 2 filhos, origem dos Gnecco no Brasil, na região sul, e do meu sobrenome biológico. Fiz esta pesquisa, ao longo dos anos.​


Claro que o padre não poderia registrar seus filhos, legalizando seus nascimentos na lei civil, pois isto significaria ser banido da igreja. Esta falta de registro oficial me custou a impossibilidade de encaminhar papéis para dupla cidadania italiana, uma vez que os filhos de Magdalena com o padre tinham registros de nascimento apenas no nome da mãe. Mas como era ele quem também fazia todos os procedimentos de cartório, isto se fez menos agressivo e possível, quando seus filhos ficaram adultos e se casaram. O filho que primeiro casou tinha 16 anos, e é desta linhagem a minha descendência. Ele mesmo realizou seu casamento e forneceu-lhe então a certidão, constando desta feita em seu nome o sobrenome Gnecco, garantindo à sua descendência usufruir de seu nome, e levá-lo adiante, nas gerações futuras.​ Soube também que ele abdicou de sua batina, pouco tempo antes de morrer.


No meu processo de adoção, porém – legalizado somente próximo aos 18 anos - houve uma alteração, por erro do cartório, para “Genecco”. Foi também neste processo tirado fora o Pamplona, por minha decisão própria, dado à extensão excessiva que resultaria o nome na íntegra. Este foi um direito meu de escolha, devido minha idade permitir escolhas.​


Recebi da família adotiva muito de minha formação, pessoal e profissional. Dentro desta guarda estudei até o nível médio, recebi formação e educação musical, e uma sólida educação moral e ética. Isto de nada valia para mim, na época. Eu era dominada por uma espécie de hipnotismo voltado a uma trágica condição de desamada, sem valor e esquecida da sorte. Uma revolta indizível, diante de uma orfandade que ia muito além da ausência física dos pais biológicos, fermentava no meu coração. Aparentemente, entretanto, era mansa e calada. Já desta época, o escape da escrita se fundiu ao meu oxigênio.


Minha madrasta me estimulou grandemente à leitura, e estava bem presente quanto ao cumprimento dos deveres escolares diários. Formaram-se aí, talvez, somado a um possível dom, as raízes de minha paixão pela leitura, e minha facilidade de me expressar na escrita. Desde o Ginásio – Escola Estadual Pio XII - escrevia alguns poemas, contos e pequenos ensaios de teatro, nas datas comemorativas, na escola.


Já casada, com 26 anos e com três filhos, fiz meu primeiro vestibular na UFRGS, para Biologia, e cursei dois semestres. Tentei troca de cursos para Tradutor e Intérprete, depois Letras, cursando 1 semestre ou 2 de cada. Amei Biologia, mas a considerava tão complexa e exigente de disciplina quanto Medicina, e minha condição de dona de casa e mãe me pedia algo mais simples de cumprir. Mesmo buscando outra formação considerada mais leve, precisei trancar a matrícula, e me afastar da vida acadêmica.


Concursada, já com mais uma filha, fui chamada e comecei a trabalhar aos trinta e um anos de idade. Durante os anos de atividade essencialmente burocrática, fruto de um disputado concurso público, sentia-me em dissonância com minha alma de escritora e poeta. Entretanto, mantinha vivo nas veias o gosto por escrever, acirrado no meu breve tempo de imersão acadêmica, notadamente em Literatura, na faculdade de Letras. Ainda que não finalizadas todas, esta visão acadêmica variada me despertou e fortaleceu meu espírito no gosto pelas disciplinas humanas - Filosofia, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Educação e Letras. Tais áreas foram alicerces do meu pensamento, e foram se solidificando na predominância em meu escrever. O transcendental e o metafísico, porém, me atraíram, tornando-se alvo de minha expressão literária. Participei de alguns concursos e coletâneas, neste ínterim, nunca estrangulando de vez minha alma de escritora. Em 1985 fui selecionada para publicar alguns poemas, na antologia “Quando as Folhas Caem”. Foi meu primeiro livro publicado, em coletânea.​


Quando fui morar em Florianópolis, transferida de meu trabalho, reiniciei a faculdade na Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, Faculdade de Pedagogia – FAED, onde o sonhado diploma superior me veio depois dos 50 anos. Após me formar, reingressei de imediato na Univali, em Psicologia, onde cursei alguns semestres, e precisei interromper meus estudos. Voltei aos pagos (Porto Alegre) e retomei Psicologia na Uniritter, mas faltando 2 ou 3 semestres para me formar desisti, pois na época já não via sentido em finalizar, apenas para colecionar diplomas. Porém nunca parei de estudar e aprender, seja em conhecimentos acadêmicos, seja no autodidatismo.


Transitei, no período de quase 10 anos, no campo das energias e metafísica, nas chamadas terapias alternativas, como Reiki Usui, Reiki Xamã, Reiki Estelar, Florais, Constelação Familiar, Regressão a vidas passadas, Física Quântica, Salto Quântico, Viagem Astral e o chá do Santo Daime, (nome religioso dado à Ayahuasca). Também obtive formação em Coaching.


Tive como base inicial de religiosidade certa frequência à igreja católica, pelo lado de minha madrasta, e também por batismo oficial. Porém também fui levada ao espiritismo, religião de meu pai adotivo. Alguns dos meus experimentos e estudos se encontram relatados no meu livro editado em janeiro de 2022, na Agbook – No mundo da ficção, só que não, como autor independente.​


Viajei por um tempo a passeio e a estudos, depois de aposentar-me. Visitei alguns países na Europa. Morei com um namorado nativo 1 ano e meio nos Estados Unidos. Neste ínterim, fui surpreendida pela pandemia, quando então fui a Portugal, onde ganhei uma bolsa de estudos, na Universidade para Mestrado em Educação e Formação. Obtive apenas pós-graduação, por impedimentos financeiros de lá completar mais um ano para receber diploma em Mestrado. Cabe lembrar que optei pelos estudos, em função de só estarem abertos os vistos para estudantes, em função da pandemia. Também porque, embora não tenha exercido a profissão de professora, a educação se constitui na minha paixão de alma. Eis-me na atualidade em plena atividade literária.

*você encontra referências sobre a tuberculose no Brasil no site da FIOCRUZ


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