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Angústia

Atualizado: 13 de jan.


Chris Galbraith na Unsplash

(Poema em texto - Prosa poética)


Te vi morrendo já morto, pois estavas ali sendo em outros ares, mares em tudo o que mais amaras. Agonizavas. Às vezes me vias. Às vezes, não. Oh, mar verde, refletidos verdes morros, areia quente, guarda-sóis, corpos expostos, carnes douradas, brancas, pretas, vermelhas. Línguas estranhas... Verão!


Os morros eram teu chão, margens do mar onde moravas, recanto de todo o encanto que vivias. Machado, pá, foice, ancinho, foram teu viver purificante das ladainhas da cidade. Cheiro de capim cortado, terra molhada e quente, como querias tudo, despido de amarras, escudo das mentiras de um mundo que te corroía. Pensavas.


Ignoraste que teu gesto erguia muros de ferro à tua volta. A derrota foi o começo do fim. Desistes! Foges do mundo, como um cavalo chucro foge das boleadeiras, como um homem foge ao ter o espírito roubado, como alguém que teve o coração dilacerado, te fechas numa concha de marfim.




Teu erro talvez fosse crer que era possível. Te amarraste como quem quis ao tronco solidão e te cobristes de palavras belas, discursos infindáveis sobre ser feliz. E a cada manhã te olhavas no espelho repetindo, e a cada noite recitavas ladainhas, e a cada andante visitante repetias, fingindo que acreditavas...


Finges que não vês, mas a foice está ali, no canto, atrás do leito, quer tua cabeça! Mas mais ágil trataste de levá-la longe. Porém agora, eis que te bate à porta o fim. Agarras minha mão com tua mão de ferro, mordes meu coração, peixe enorme, sem nome, cheio de dentes como alfinetes.


Não vás!!!


Sei que morres, no meu saber ancestral, como o mar sabe do sal, e as rochas do calor do sol. Teu sol tuas rochas tuas areias teu mar tuas noites tuas mãos de ferro, golpeando. Teus ossos doem, batendo foices em raízes fortes e fundas. A foice está ali, podes vê-la, mas já não és tu a manejá-la. Afago-te o rosto aflito, te retorces, pulso amarrado ao leito, teus olhos, duas poças de mar, mergulham no meu peito, e me fazem mergulhar no teu delírio de gaivotas, robalos, e tainhas, e a prata borbulhante de sardinhas.


Por vezes, num rasgo de lucidez, me vês. Sorris como uma roupa rota despojada de seu corpo. Mimetizas o cigarro a todo o instante, e soltas baforadas ao sabor da fantasia. Cresce o nevoeiro à tua volta, vejo. Dou-te um beijo, mas não voltas... Não voltas!


A ceifadeira é surda e muda e traz o selo marcado-a-ferro com teu nome. São pesadelos nos jardins dos cemitérios e mostram já o teu espectro a vagar. Ai de mim, dilacerada, punhos chumbados com liga desesperada do desencanto e do vazio.


Te apossas das porções de minha carne a ti ligada e carregas para o escuro, terra fria que te vai cobrir. Minha vida aos pedaços é levada, braços, olhos, beijos, lágrimas, longas conversas, horizontes, barcos, galhos secos estalando na lareira, a chaleira fumegando, mar chiando, madrugada afora, e os passos do relógio, marca passo noite adentro, circulando como moinhos no engenho.

Silêncios vastos, como as profundezas deste mar.


Mar de leste, vento sul, espelho do céu azul, às vezes embarcações fazem o recanto de cais. Pescadores passam com suas varas, e caras de cachaça enchendo o ar, cheiros etílicos, idílicos, hormonais. Tudo engolido, garganta abaixo, escorre tragado, bebe-o a terra do avesso, como chorume azedo, escuro e espesso, fertilizando outras vidas.


Ai, amigo! Amor, abrigo, íntimo e fiel! Sorvo o fel do teu adeus, do qual nem sabes. A Deus clamo o milagre. Abres meu peito em agonia, e a alma fria se dispersa. Que faço, sabendo-te agora a casa vazia? Tua ausência leva minha alma à mingua. Onde saciar o desejo do teu abraço? Braço firme, peito forte, sendo que a morte te faz pó, e impiedosa tua vida estanca, e me deixas só?


(Poema em texto. Homenagem ao tempo que vivi um grande amor em parte de minha história, aprendendo a discernir a magia da beleza entre o encontro e o desencontro de almas, entre a vida e a morte, entre passado e presente imiscuídos em sonho e realidade, onde só o amor é o perfeito mestre. Praia do Matadeiro - Florianópolis, Santa Catarina- 2007)


2 Comments

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Angela Rosana
Angela Rosana
May 30, 2023
Rated 5 out of 5 stars.

Maravilhoso, parabéns pelo trabalho!❤️💫

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irenegenecco
irenegenecco
May 30, 2023
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obrigada!❤😊

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