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Esconderijos da memória

Atualizado: 3 de dez. de 2023

Leia o post Meia hora de escrita por dia


Hoje estou mais leve. Sem o peso asfixiante do barro da minha urna mortal (corpo). Mas esta leveza me leva a um maior senso crítico. Fico atenta no que escrevo e isto me faz concordar, discordar, e querer mudar a escrita quando assim acho conveniente. Será que isto significa que preciso estar pesada e deprê pra poder rolar a escrita livre, leve e solta?


Ah, que merda isto de escrever! Gosto e quero, mas existe uma linha de logicidade a ser respeitada. Qualquer descuido e esta linha é rompida, e tudo se perde. Vamo que vamo! Será que tudo o que penso se esvai para as pontas dos meus dedos e verte para o teclado e se esparrama pelo hardware e estas peças de ferro vão se umedecendo e lubrificando com meus pensamentos?


Será que daqui a um tempo ele vai virar gente? E lançar os braços pra fora do computa'dor, e me sugar, e me moer nos seus complexos binários? Ah é muito bom deixar rolar o pensar e dizer qualquer coisa, mesmo que não faça sentido, e que a linha do lógico se rompa, desde que não seja para sempre, e fora da magia do escrever...


A tarde é de começo de verão. Quente, mas sopra uma brisa na janela do quarto, enquanto escrevo. Tem sombra deste lado. O sol bate inclemente do outro lado do meu ap. Tem um silêncio planejado aqui. Quando a sinaleira fecha lá na avenida, o trânsito cessa de zunir.


Ontem escrevi 1 hora!!! Hoje estou remoendo pra clicar teclas por 30 minutos! Ah, lembrei! Estava falando do silêncio quando o trânsito para, lá na avenida. É um oco enorme, infindável, parece que estou solta no espaço que não tem fim. Sou um nada. Ou o tudo em pensamento. Escuto um galo cantando muito longe. Escuto algum passarinho piando. Escuto o fantasma de todos os sons de longe, que não se identificam, apenas chiam, num tom de Ah, ou de Om... Escuto um zumbido infernal no meu ouvido, que aparece de repente do nada, e no nada some. Não sei como some. Não sei se some ou se me esqueço disto e fico focando noutra coisa a minha consciência. Daí vem o grande questionamento, a pergunta que não quer calar: será que o zunido existe, ou tô inventando? Por que como é que alguma coisa pode existir e de repente deixar de existir? Tirando a morte, claro, que é exímia neste quesito.


Assim acontece com tudo. Quando nos absorvemos numa coisa, esquecemos todo o resto. Esqueço que tenho filhos e netos... esqueço quem sou, quem fui e quem quero ser, esqueço meu nome, e todas as paixões e todos os rancores e tudo que havia há poucos segundos guardado na memória e exposto em fragmentos frente ao foco, que não sei quem afinal o determina. Mergulhar na água e no sabão de lavar uma xícara de chá, como um perfeito monge? O resto é resto? Ou não há resto? Memória técnica! Manipuladora! De conveniências? Fecham-se todas as portas para o que chamamos de "resto". Será? Simplesmente porque estou focando numa formiga, ou na novela de ontem, ou no chiado do trânsito quando a sinaleira abre. Daí foco com ódio na descarga da moto que a tudo encharca com ronco de tiranossauro enfurecido.


Onde vão as coisas anteriores ou posteriores ao presente? E como é que as vezes estou no presente, como por exemplo tomando café, e minha mente está a léguas dali, no futuro ou no passado? Quando me percebo onde estou, na pequena mesinha da minha cozinha, o café já acabou, e sequer lembro do sabor da manteiga, da geleia, do biscoito... pois para mim é como se nada disto tivesse acontecido. Meu foco estava alhures. Daí às vezes como de novo, porque não me conformo de ter perdido a melhor parte, o sabor.

Talvez por isto a humanidade tá ficando obesa. Alzheimer técnico.

escrito em 26/11/22





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